O Risco Cambial e a Rentabilidade

em

A minha estratégia de investimento focada em ações americanas com bom historial de pagamentos de dividendos apresenta duas desvantagens: a eficiência fiscal e o risco cambial.

Eficiência fiscal

Do ponto fiscal, a rentabilidade dos investimentos é fortemente penalizada pelo imposto pago por cada distribuição de dividendos. Em Portugal os dividendos são taxados em 28%.

Os produtos financeiros que não distribuem mas acumulam os dividendos, permitem reinvestir esses 28% em vez de os pagarem ao estado. Ao fim de muito tempo, com a capitalização dos dividendos, esta diferença será considerável.

Sabendo disso, optei por esta estratégia menos eficiente fiscalmente por dois motivos:

  • Pelo efeito psicológico e de motivação que tenho ao ver todos os meses os dividendos a caírem na minha conta e também ver que a cada ano esse montante vai sempre crescendo.
  • Porque o meu objetivo é ter um complemento mensal na reforma mas sem mexer nos produtos de investimento. Desta forma, em casos normais, os valores dos dividendos a receber serão mantidos durante toda a minha reforma. Se, em vez de investir em produtos com distribuição de dividendos, investisse em produtos com acumulação de dividendos, quando chegasse à reforma, teria que vender uma parte dos investimentos para conseguir o tal complemento e, todos os meses, iria reduzir o montante investido e, consequentemente, o valor futuro de dividendos a receber.

Risco Cambial

Outro aspeto a ter em conta na minha estratégia é o risco cambial associado a ter uma grande exposição a produtos cotados em Dólares, pois a variação da cotação do Dólar impacta a valorização dos ativos e dos próprios dividendos.

A geração de bons resultados de investimento a longo prazo exige necessariamente que assumamos algum risco. Como investidores, no entanto, o nosso objetivo deve ser maximizar a rentabilidade dos investimentos sem correr mais riscos do que o necessário para alcançar essas rentabilidades.

Grandes oscilações nas taxas de câmbio são um dos riscos do investimento. Quando investimos as nossas economias numa carteira de investimentos de longo prazo de ações, títulos e outros tipos de investimento, esperamos beneficiar da apreciação de longo prazo desses investimentos.

Infelizmente, bons resultados nos investimentos podem ser diminuídos ou completamente revertidos por alterações na taxa de câmbio entre a denominação monetária dos nossos investimentos e a nossa moeda de origem. Isso é o risco cambial ou risco de taxa de câmbio.

Por exemplo, se uma ação, durante um determinado período, tiver uma valorização de 10% mas o Dólar, nesse mesmo período, desvalorizar também 10%, a minha rentabilidade nesse período será zero.

Por outro lado, posso ter uma desvalorização de 10% por cento na cotação da ação mas o dólar valorizar nesse período, pelo que a desvalorização da ação vai ser reduzida na mesma medida da valorização da moeda.

Publicidade

Acontece por vezes ter ações com rentabilidades negativas na cotação em Dólares, mas ter rentabilidade positiva em valor em Euros exatamente porque o Dólar valorizou desde a compra da ação.

Atualmente, a rentabilidade dos meus investimentos em Euros e em Dólares está diferente. Vejamos:

TickerQtdG/P $% G/P $G/P €% G/P €
MMM2-17,65-5,32-8,13-2,73
ABBV533,357,5544,5411,33
MO10-44,10-8,77-30,74-6,77
AAPL2348,11125,23299,74108,04
T128,201,8016,303,97
CVX3-17,17-4,99-8,41-2,71
ET42-26,32-4,91-7,45-1,56
GIS88,892,1021,475,71
JNJ364,7916,8269,6920,19
PFE12-6,80-1,562,370,60
PM437,4511,6642,6314,80
O25,333,348,465,89
WFC73,140,958,092,70
397,22 458,56

Como se vê no quadro anterior, a minha rentabilidade Total (G/P) em Euros está muito superior à rentabilidade em Dólares. Isto porque o Dólar valorizou em relação ao Euro desde o momento em que comprei as ações.

Este efeito é muito visível nas ações da Pfeizer (PFE) em que tenho rentabilidades negativas em Dólares mas positivas em Euros.

É preciso não esquecer que sempre que compramos ações de uma empresa estrangeira, na verdade, estamos a tomar duas decisões de investimento. Estamos a apostar no desempenho da empresa e na própria moeda em que a ação está cotada.

O cenário ideal, claro, é aquele em que o preço das ações sobe e também obtemos um benefício extra com a valorização da moeda. O pior caso é aquele em que as ações caem e a moeda perde valor em relação ao Euro.

Claro que a questão não é nada simples. Podemos preferir assumir estes riscos cambiais para efeitos de diversificação. Por exemplo, para não estarmos demasiadamente expostos a uma zona geográfica específica.

Imaginemos o cenário em que apenas possuímos ativos denominados em Euros, de forma a não termos este risco cambial. No caso da Europa entrar em crise, os nossos investimentos vão desvalorizar, a própria moeda também, além dos riscos mais pessoais como a possibilidade de perder o emprego que aumenta exponencialmente nestes cenários de crise económica. Nestes casos, estarmos expostos a outras moedas e regiões pode ser benéfico.

Podemos complicar ainda mais se pensarmos que uma empresa multinacional pode ser cotada em Dólares mas possui negócios no mundo inteiro, pelo que os seus próprios resultados operacionais já estão a ser influenciados pelos movimentos cambiais das várias moedas dos mercados onde opera e isso se reflete no valor e na cotação das ações da empresa. Sem falar noutras implicações que desconheço.

Então porque é que eu invisto maioritariamente em ações americanas?

Eu acredito que as empresas em que invisto, visto serem empresas globais e de dimensão considerável, estão mais bem preparadas para suportarem grandes recessões, como já aconteceu no passado.

Além disso, o Dólar é a moeda usada na grande maioria das transações internacionais pelo que deve ser a moeda mais estável em contextos de dificuldades económicas.

Também acredito mais na economia americana do que na europeia e estou a diversificar a minha exposição pois os meus rendimentos salariais estão expostos ao Euro, mas só o futuro dirá se estou correto ou não.

RBhttps://www.casacomtodos.com
Informático, de profissão e vocação, adora fazer caminhadas, correr, ver séries e ler livros de finanças pessoais. Destas, apenas 2 são mesmo verdade.

1 COMENTÁRIO

Deixar um comentário

ATUALMENTE A LER

MAIS POPULARES

COMENTÁRIOS RECENTES