O Movimento FIRE

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Há um movimento relacionado com as finanças pessoais que, desde 2010, ganha cada vez mais adeptos entre os millennials e não só, através de partilha de experiências em grupos online, blogs, podcasts, etc. É o FIRE (Finance Independence, Retire Early).

As ideias principais por trás do movimento FIRE tiveram origem no best-seller de 1992 ‘Your Money or Your Life’, escrito por Vicki Robin e Joe Dominguez e no livro de 2010 ‘Early Retirement Extreme’, de Jacob Lund Fisker.

Esses trabalhos fornecem o modelo básico de combinar modos de vida simples com rendimentos de investimentos para alcançar independência financeira.

Objetivo

O FIRE é um movimento cujo objetivo é a independência financeira e a reforma antecipada, vivendo de uma forma extremamente frugal durante os anos de trabalho e tentando maximizar a taxa de poupança através da procura constante da redução de custos e do aumento dos rendimentos.

O objetivo é acumular ativos e investi-los até que este património forneça rendimento suficiente para despesas fixas do dia a dia, de forma a se poderem reformar mais cedo do que a idade convencional de reforma, existindo casos de pessoas que se reformaram antes dos 30 anos e muitas entre os 30 e os 40 anos de idade.

Os defensores do movimento FIRE sugerem a regra dos 4% como guia, estabelecendo uma meta de obtenção de património de pelo menos 25 vezes o custo anual estimado de vida.

Para cobrir as suas despesas do dia a dia após se reformarem antecipadamente, os seguidores do FIRE fazem pequenos levantamentos das suas poupanças, geralmente em torno de 3% a 4% ao ano.

Dependendo do valor das poupanças e do estilo de vida desejado, isso exige extremo cuidado para controlar as despesas e exige ainda a manutenção e realocação contínua dos seus investimentos.

Taxa de poupança

O FIRE é alcançado através de taxas de poupança agressivas, muito mais do que o padrão de 10 a 15% normalmente recomendado pelos consultores financeiros.

Note-se que, assumindo receitas e despesas constantes e não considerando retornos de investimentos:

  • A uma taxa de poupança de 10%, são necessários 9 anos de trabalho para economizar um ano de despesas fixas.
  • A uma taxa de poupança de 25%, são necessários 3 anos de trabalho para economizar um ano de despesas de moradia.
  • A uma taxa de poupança de 50%, é necessário 1 ano de trabalho para economizar um ano de despesas fixas.
  • A uma taxa de poupança de 75%, são necessários 0,33 anos de trabalho para economizar um ano de despesas fixas.

A partir deste exemplo, pode-se concluir que o tempo necessário para que alguém se possa reformar antecipadamente diminui significativamente à medida que a taxa de poupança aumenta.

Por esse motivo, aqueles que perseguem o FIRE tentam poupar 50% ou mais dos seus rendimentos. Com uma taxa de poupança de 75%, levaria menos de 10 anos de trabalho para acumular 25 vezes o custo médio anual de vida sugerido pela regra do Safe Withdraw Rate de 4%.

A regra dos 4%

A Regra de 4%, também conhecida como Safe Withdraw Rate (SWR), é uma regra que os consultores financeiros e os reformados utilizam para determinar o valor de um portfolio de ações que pode ser gasto anualmente sem ficar eventualmente sem dinheiro.

Esta regra é baseada em duas médias financeiras.

Como se estaria a gastar apenas o crescimento incremental médio do portfólio, em teoria nunca ficaríamos sem dinheiro.

Primeiro, a regra dos 4% diz que o portfolio de ações crescerá a uma taxa média de 7% ao ano. Segundo, como a taxa média de inflação nos EUA é de 3%, podem ser retirados com segurança 4% desse crescimento, deixando 3% para trás para acompanhar a inflação.

Claro que estes parâmetros se aplicam aos EUA, onde este movimento surgiu.

Existem vários críticos da eficácia desta regra para pessoas que se reformam cedo pois ela foi desenvolvida a pensar num período típico de reforma de 30 anos e não nos possíveis 70 anos de reforma se alguém se reformar nos seus 20s.

Além disso, o retorno dos investimentos está sujeito aos ciclos económicos. Assim, se ocorrer uma recessão nos primeiros anos de reforma e o valor dos investimentos cair consequentemente, os 4% retirados do portfólio poderão não ser suficientes para suportar as despesas.

No entanto, em termos gerais, a opinião geral é que esta regra funcionará para a grande maioria dos casos.

Saber mais

Não faltam recursos online para quem pretender saber mais sobre o FIRE.

Talvez o que surge mais vezes em primeiro lugar é o blog Mr. Money Mustache. Este blog pertence a um canadiano a viver nos EUA de nome Peter Adeney. O Peter reformou-se do seu emprego como engenheiro de software em 2005 aos 30 anos, gastando apenas uma pequena percentagem do seu salário anual e investindo consistentemente o restante, principalmente em fundos de índices do mercado de ações. É atualmente visto como um dos mais importantes gurus do FIRE.

O canal do YouTube Our Rich Journey, por sua vez, permite acompanhar a história de um casal de norte-americanos que atingiram o FIRE e se reformaram com 39 anos, tendo posteriormente se mudado para Lisboa onde conseguem um melhor estilo de vida com um custo inferior ao que teriam na sua terra natal.

São apenas dois exemplos de um conjunto enorme de sites e blogs dedicados a este tema que uma simples pesquisa no Google disponibilizará.

Conclusão

Este movimento causa muita polémica e recolhe imensas críticas por uma sociedade que já se habituou a trabalhar até pelo menos aos 65 anos de idade. Sempre que aparece um novo movimento que de alguma forma envolve uma mudança de estilo de vida e de mentalidades, será contestado e criticado.

Por exemplo, há quem seja da opinião que estas pessoas estão a desperdiçar os melhores anos das suas vidas, apenas concentrados na sua taxa de poupança e não aproveitando a juventude para viver a vida.

Há também muitos casos de sucesso de pessoas que atingiram o FIRE e que atualmente vivem dos rendimentos e passam os seus dias a viajar e a contar a sua experiência em blogs e no Youtube (e a tirar grandes rendimentos disso).

Sobre os fundamentos deste movimento, a minha modesta opinião pessoal está mais orientada para o meio-termo. Não sou adepto de poupar em tudo o que não seja essencial, como quem pretende atingir o FIRE e ter taxas de poupança de 70% pois penso que a minha existência não se deve resumir apenas ao essencial, mesmo que temporariamente. Também sou contra viver a vida no limite financeiro e não ter uma taxa de poupança que permita construir uma segurança para fazer face aos dias menos bons que possam surgir sem aviso.

E vocês o que pensam deste movimento?

RBhttps://www.casacomtodos.com
Informático, de profissão e vocação, adora fazer caminhadas, correr, ver séries e ler livros de finanças pessoais. Destas, apenas 2 são mesmo verdade.

4 COMENTÁRIOS

  1. Fala RB.
    Eu me considero parte deste movimento, que aqui no Brasil é relativamente grande, tendo muitos blogs no que chamamos de finansfera.
    Porém, também concordo que a altas taxas de poupança (próximas de 70%), estaríamos deixando de viver bem (exceto se tivéssemos uma renda enorme). Considero 30% a 40% de taxa para mim, e procuro investir um pouco mais quando recebo algum bônus ou premiação no trabalho.
    Te convido a conhecer um pouco mais dos blogs brasileiros, que são muito bons e tem uma grande semelhança linguística, claro, hehehe.
    Aqui estão os meus preferidos (falta incluir o seu!):
    https://acumuladorcompulsivo.com/os-melhores-blogs-blogroll/

    Um abraço!
    Stark.
    http://www.acumuladorcompulsivo.com

    • Olá Stark,

      Gostaria de ter conhecido este movimento mais cedo na minha vida. Iria certamente fazer menos erros financeiros, mas como se diz por cá, mais vale tarde do que nunca.

      Obrigado pela partilha dos seus blogs preferidos. Da lista apenas conheço o Viver de Dividendos e o seu, claro, que acompanho com frequência e são ambos muito bons.

      Muito obrigado pelos comentários e bons investimentos.

      abraços,
      RB

      P.S.- Também tenho que atualizar a lista de blogs que acompanho no meu blog, que acho que está igual desde que o início.

  2. Olá RB

    Fico extremamente satisfeita por abordar esta temática e desde já as minhas desculpas pelo testamento, mas perdi me no meio da excitação. Também concordo que no meio está a virtude.. isto porque, para se concretizar o Fire extremo (extremo – Prof Jacob, Mr MM, antes dos 40 anos), várias condições não existentes em portugal..:

    1) poupanças para reforma pre-tax (sobre o bruto e livres de impostos), muitas vezes encorajadas pela entidade empregadora com situações de 100% match até valores em torno dos 12% brutos. IE, sobre uns hipotéticos 2500€ brutos, por mês uma poupança à cabeça de 600€ e só depois a aplicação dos respetivos escalões de IRS.. com condições de resgate igualmente favoráveis fiscalmente nos seus 401k e Iras
    2) produtos financeiro com risco mínimo a gerar facilmente rentabilidades dos tais 4% (safe withdrawal rate)
    3) mercado imobiliário (exceptuando grandes centros como SF, Bay area e zonas particulares do estado de NY) a render 10% bruto por ano em arrendamento;
    3.1 – possibilidade de comprar para arrendar e vender sem tributação de mais valias mesmo que se trate de situação de venda 2º habitação- compra 2º habitação;
    3.2 – possibilidade de aquisição de imóveis com condições de crédito favoráveis que permitem uma alavancagem de créditos, sendo o investimento de capitais próprios um valor residual desde que a renda estimada cubra o valor da prestação…

    Se a idade da reforma se situa atualmente nos 66+6 e com tendência a subir 1 mês por ano, a reforma 10/15 anos antes (50-55anos) dará ainda anos importantes de qualidade de vida substancial para a opção de escolha de trabalhar, não trabalhar, ou part-time.. Em portugal para já não temos os custos associados à saude nos EUA mas não vi ainda mencionar com detalhe como é que uma pessoa nos EUA consegue sem emprego um seguro de saude aos 70 anos..

    Acima da verdadeira reforma, parece-me que a nossa forma de ver o Fire comprará o conceito de “liberdade” da opção de trabalhar ou não, e para quem e em que quantidade.. ou pelo menos um “semi”-fire.

    Por cá:
    Durante a 3º década de vida prolongar durante 5-6 anos o estilo de vida de “estudante universitário”, 1 carro muito usado e tirando partido de metro e andar a pé, férias muito à base de ryanair, e usámos o € do casamento (pago pelos pais, reconheço que foi uma grande ajuda, tendo prescindido da cerimónia propriamente dita para investir o €) para pagar 50% da nossa habitação primária – nr 1 – esta foi a melhor decisão tomada até hoje pois permitiu para além de aliviar o que acaba por ser o maior gasto da grande parte das famílias fazê-lo numa fase precoce. Para amortizar mais rapidamente os restantes 50% optei por iniciar um 2º emprego. Assim, 5 anos depois adquirimos uma segunda habitação a crédito para investimento (rentabilidade ~4% brutos/ano).
    Na 4º década de vida; para optimização € mudámos de casa para uma habitação (nr3) na periferia (mais barata, comprada também com recurso a crédito) e assim arrendar a nr 1 com rentabilidade de 8%/ano. Já tínhamos uma segunda viatura (tb usada) e a diferença de gasóleo/portagens da periferia face centro da cidade é mínima, já que nenhum de nós trabalha no centro da cidade. Uma vez que as rendas permitem cobrir as 2 prestações de CH e despesas associadas aos imóveis, e ainda com algum excedente (que usaremos para diversificar e investir noutros produtos – parabéns pelo blog que tem sido uma ajuda imensa) decidimos melhorar a nossa qualidade de vida e reduzir a taxa de poupança de 70 para 50-55%. Estando confortáveis nos 55% perdemos a racionalidade e partimos para a parentalidade.. que é um enorme anti-fire.. só o futuro poderá antever a perda de poupança associada ao 1º filho; sem o qual com estas previsões conseguiríamos a tal liberdade aos 50/57 anos respetivamente, altura em que acabaríamos de pagar os CH ficando com a rentabilidade e o valor residual dos imóveis.

    Em suma, poupança cedo na carreira contributiva, não perder a cabeça no lifestyle inflation, trabalhar muito, ter alguma sorte no tipo de investimentos.. não ter filhos? (falhamos nesta parte)

  3. Olá Princess of Finland,

    Excelente percurso. Fico com inveja.
    Eu abri os olhos muito tarde e agora só já consigo atingir a reforma antecipada aos 95 anos de idade. Defini outros objetivos, menos ambiciosos mas adequados à minha realidade. Vamos ver como corre.

    Concordo consigo. O nosso país não é o mais amigável para quem quer investir. Temos que tentar fazer o melhor com o que temos.

    Obrigado pela visita e pelo comentário,
    Cumpts
    RB

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