Lifestyle Inflation

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Desde que, há uns meses, comecei-me a interessar mais pelas finanças pessoais, tenho lido muito sobre o tema, incluindo bastantes blogs de gente de vários cantos do mundo.

Muitas vezes dei por mim a ler sobre alguém que, numa geografia mais a norte, dizia que poupava 4, 5 ou 6.000€ por mês. “Se eu ganhasse o que eles ganham, também eu…”, pensava eu.

Mas nesses mesmos países, apesar dos salários elevados, não são todas as pessoas que conseguem poupanças dessa dimensão. Aliás, são muito poucas até.

Cá no nosso cantinho, com os nossos pequenos salários, acontece o mesmo. Muitos que ganham mais têm taxas de poupança inferiores a muitos que ganham menos.  E muitas pessoas que vão ganhando progressivamente mais ao longo da sua carreira, não vêm esses aumentos de salário refletidos nas suas poupanças.

Então o que faz com que pessoas que ganham progressivamente mais, não consigam poupar também progressivamente mais?

O que acontece é o que os americanos chamam de Lifestyle Inflation que, traduzindo para português, será qualquer coisa como Inflação do estilo de vida.

O que é?

A inflação do estilo de vida refere-se ao aumento dos gastos e das necessidades à medida que os ganhos aumentam. 

Esta inflação do estilo de vida tende a continuar sempre que se recebe um aumento, tornando-se perpetuamente difícil ver-se livre de dívidas, poupar para a reforma ou atingir outras quaisquer metas financeiras. 

A inflação do estilo de vida é o que leva as pessoas a trabalhar apenas para pagar as contas.

A primeira vez que este tipo de inflação acontece é, normalmente, quando temos o primeiro emprego. Se, até aí, o dinheiro vinha de algum lado, normalmente dos pais e tinha que ser bem gerido porque era o mínimo indispensável, depois de começarmos a ter o nosso próprio ordenado, passamos a ter acesso a outras possibilidades que até aí não tínhamos.

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Depois continua a acontecer, se deixarmos, durante toda a vida. Normalmente, quando somos aumentados ou trocamos o emprego por outro com um salário superior, temos aquela sensação que nos podemos tratar melhor e temos tendência a ajustar as nossas “necessidades”, trocamos o carro por um melhor, compramos uma casa maior com maiores despesas fixas, compramos mais roupa de marca, férias mais dispendiosas, etc.

A quem nunca aconteceu passar a ganhar mais e, no entanto, parecer que o dinheiro ainda rende menos do que antes? Isto porque o aumento nos deu a sensação que podíamos ter mais e, na realidade, nos trouxe mais despesas. E isto acontece sem darmos conta.

Durante toda a minha vida de adulto eu fui assim. Com um novo aumento vinham mais possibilidades e mais despesas. “Trabalhei muito para ter este aumento, por isso, mereço um miminho e vou trocar o telemóvel que só tem um ano. Vou também assinar a SportTV para ver a liga dos campeões de vez em quando”. E por aí fora…

A boa notícia é que nunca é tarde demais para tentar dar a volta e voltar aos eixos. 

A má notícia é que é muito difícil dar a volta para a maior parte das pessoas. Quando nos habituamos a ter determinadas coisas e elas passam a ser vistas como necessidades, ficar sem elas de um dia para o outro é muito difícil.

Como evitar?

Este tipo de inflação pode ser evitado. Aqui estão algumas sugestões para evitar a inflação e fazer uma boa administração do nosso dinheiro:

Estabelecer objetivos financeiros de curto e longo prazo

A  criação de objetivos financeiros faz-nos ter um plano com significado para o nosso dinheiro. É mais difícil gastar o dinheiro em coisas supérfluas quando temos objetivos e metas financeiras a cumprir.  

Definir e cumprir o orçamento mensal

Se tivermos um orçamento mensal definido, quando o nosso rendimento aumentar, se não aumentarmos as nossas despesas e mantivermos o orçamento como estava, podemos utilizar o rendimento adicional nos nossos objetivos financeiros como aumentar a poupança, antecipar o pagamento de empréstimos, etc.

Não imitar os outros

Porque todos os nossos vizinhos foram de férias para as Caraíbas não quer dizer que nós também tenhamos que ir. Só porque o cunhado comprou a última novidade em TVs 4K, não quer dizer que a nossa TV já não sirva para nós. Especialmente agora com as redes sociais, estamos constantemente a ser bombardeados com as últimas novidades dos amigos e conhecidos. Não temos que ir atrás só para mostrar que também podemos.

Pague a si primeiro

Quando o nosso rendimento aumentar, devemos alocar uma parte desse aumento (ou todo) ao aumento da nossa taxa de poupança. Quando recebermos o vencimento, devemos colocar logo esse dinheiro de lado, no nosso fundo de emergência, na conta poupança, no plano de investimentos, etc. Desta forma não teremos a sensação que temos mais dinheiro que poderemos utilizar em coisas supérfluas.

Nem toda a inflação é má!

Mas nem toda a inflação do estilo de vida é má.

Afinal de contas, não queremos viver para sempre como quando éramos estudantes, por muito que se goste de espaguete com salsichas.

Algum do dinheiro ganho com tanto sacrifício tem que ser utilizado para melhorar o nosso nível de nível, desde que não o desperdicemos em coisas que só nos satisfazem momentaneamente ou que adquirimos só porque os outros também têm.

O importante é garantir que os objetivos financeiros importantes são postos em primeiro lugar em relação à melhoria do estilo de vida com coisas não essenciais.

Conclusão

Ser vítima da inflação do estivo de vida é comum e pode acontecer sem darmos conta. 

Através da utilização de um orçamento mensal e de ser conscencioso acerca dos nossos gastos, podemos fazer com que esta inflação não coma todos os nossos aumentos de rendimento e nos possibilite a sua utilização nos nossos objetivos financeiros mais importantes como o pagamento antecipado de empréstimos, o aumento do nosso fundo de emergência, o aumento da poupança para reforma, etc.

RBhttps://www.casacomtodos.com
Informático, de profissão e vocação, adora fazer caminhadas, correr, ver séries e ler livros de finanças pessoais. Destas, apenas 2 são mesmo verdade.

2 COMENTÁRIOS

  1. Caro Rb, permita me felicitar a temática e conteúdo do blog, que estão muitíssimo bem construídos. infelizmente, em Portugal parece-me existir uma iliteracia financeira imensa, fruto da cultura (em que se encara o dinheiro e discussões acerca como tabu) e consequente ausência de enquadramento destes nos programas escolares.. assim, os jovens entram no mercado de trabalho sem qualquer formação sobre este tema, filhos de adultos que tão pouco foram expostos aos princípios básicos de gestão financeira e poupança.
    A minha impressão é que este tema, à semelhança do que acontece nos estados unidos, será cada vez mais relevante quando se prevê que as reformas serão cada vez mais um complemento, e não uma fonte de subsistência, aliado ao facto de a mudança do paradigma de gerações (que previamente, os filhos asseguravam a saúde dos pais, neste momento, os lares do estado têm listas de espera superiores a 2 anos e os privados custam mais que a esmagadora maioria das reformas atuais) que nos obrigará a poupar para a situação da velhice.
    Por aqui, menos uns anos, embora perigosamente aproximando dos -entas, a tentar poupar e investir o que os nossos salários permitem.
    Acompanharei de perto o seu percurso
    Mais uma vez, muitos parabéns

    • Olá Princess of Finland,
      Concordo inteiramente com tudo o que disse.
      Agradeço ter passado por cá e pela enorme carga de motivação que me deu.
      Muito obrigado

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