Finanças do casal

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Hoje finalmente tive motivação para escrever este artigo, que já estava há muito pensado, a descrever um pouco como lidamos com as nossas finanças cá por casa.

Antes

Primeiro, um pouco de contexto.

Tanto eu como a IM já fomos casados com outras pessoas, pelo que cada um de nós teve uma vida anterior a esta, com experiências diferentes, problemas distintos e situações financeiras próprias.

Do meu lado, nós nunca fomos pessoais frugais nem pensávamos muito no longo prazo. Depois das férias, das despesas com os carros e com a casa, o infantário da miúda e os jantares fora, pouco sobrava.

Eu era, sem dúvida, o mais gastador porque também gostava de usufruir sempre do último grito em tecnologia.

Nessa altura, as nossas finanças giravam em torno do casal. Cada um tinha a sua conta pessoal, onde era recebido o ordenado e de onde eram pagas as pequenas despesas pessoais do dia-a-dia, como o café e os almoços, mas a maior fatia dos salários era transferida para uma conta conjunta, utilizada para pagar todas as despesas do casal, como as relacionadas com a casa, alimentação, vestuário, etc.

Quando sobrava dinheiro ao fim do mês, este era transferido para uma conta conjunta de poupança de onde se gastava ocasionalmente, quando haviam despesas mais avultadas com carros, férias e outros gastos extraordinários.

A maior parte das decisões financeiras eram tomadas em conjunto mas nem todas eram consensuais. Por exemplo, eu preferia gastar menos em férias e em roupa para gastar mais em eletrónica e restaurantes (um vício meu) e ela era o oposto. De vez em quando tínhamos discussões sobre dinheiro, o que penso que seja o normal num casal típico.

Do lado da IM, a situação era bastante semelhante.

Após os respetivos divórcios, cada um de nós passou a ser o único responsável pelas suas finanças e ganhámos o hábito de não ter que dar satisfações a ninguém pelas suas decisões financeiras.

Agora

Há alguns anos, após um tempo de namoro, a IM convidou-me para morar com ela e com o filho e eu aceitei.

Logo de início comecei a partilhar as despesas da casa mas cada um tinha as suas contas e era sempre uma luta para ver quem pagava quando íamos ao cinema, ao restaurante, etc. Lembro-me que cada um de nós arranjava as desculpas mais esfarrapadas para tentar pagar antes do outro.

Resolvemos então abrir uma conta conjunta para onde cada um de nós transferia, no início do mês, um valor fixo para fazer face às despesas da casa e às restantes despesas comuns. Deixámos então de ter que lutar para pagar pois, quem quer que pagasse, o dinheiro saía da mesma conta.

Durante este tempo que temos vivido juntos, o montante com que cada um contribui para a conta conjunta foi sofrendo ajustes. À medida que íamos tendo mais experiência e mais conhecimento das nossas despesas e dos nossos custos como casal, fomos reajustando as nossas contribuições de acordo.

Temos também uma poupança conjunta que serve para fazer face a despesas inesperadas como a substituição de um eletrodoméstico, efetuar obras na casa, etc.

No entanto, ao contrário do que acontecia em vidas passadas, as despesas pessoais de cada um, sejam de vestuário, transportes, despesas com hobbies, saídas com amigos, etc, passaram a sair na totalidade das nossas contas individuais e cada um gere o seu dinheiro individualmente.

O tempo foi passando e esta situação manteve-se inalterada até aos dias de hoje.

A forma correta

Existe uma forma correta de lidar com as finanças como casal? Sim, é aquela que faça o casal sentir-se mais confortável com o assunto e isso depende do casal.

Eu sei que faz confusão a muitas pessoas esta nossa forma de lidar com o dinheiro, que é partilhada também por outras pessoas.

Um casal é uma equipa que trabalha em prol de um conjunto de objetivos comuns e as finanças são, obrigatoriamente, um desses objetivos. Manter as finanças separadas faz parecer, a quem não é adepto desta solução, que os membros do casal estão em modo “cada um por si”. Eu próprio já pensei isso de outras pessoas, por isso sei como é. E sei que haverá casais em que isso é mesmo assim, cada um por si.

Não é o nosso caso e, embora termos chegado até aqui quase por acidente, vou tentar descrever as vantagens que vejo em mantermos as finanças separadas.

Em primeiro lugar, as finanças separadas permitem um controlo emocional completamente diferente. Por exemplo, eu pago pensão de alimentos aos meus dois filhos e não me iria sentir bem se esse dinheiro saísse da nossa conta conjunta, pois a minha companheira não tem que pagar uma parte dessa minha obrigação. Da mesma forma, eu não iria querer que a pensão de alimentos que ela recebe do ex-marido fosse parar à nossa conta pois iria sentir que estava a receber uma parte desse valor.

Depois, apesar de formarmos um casal, somos também indivíduos, cada um com as características que nos fazem únicos. Se ela quer ir ao cabeleireiro e eu ao futebol está tudo bem e ninguém tem que dar explicações ao outro pois cada um tem o seu dinheiro para gerir e fazer o que gosta, o que nos dá um sentimento de alguma independência que também importante em família.

Para que funcione é, no entanto, indispensável termos os nossos objetivos financeiros alinhados. Felizmente nós temos e nenhum de nós gasta exageradamente em coisas supérfluas.

Também por isso, nunca tivemos discussões sobre dinheiro cá em casa. Nunca existiram comentários do tipo “este mês que estamos mais apertados tu foste comprar isso?”.

Cada um de nós gere o seu dinheiro e isso faz-nos poupar mais. Com uma conta conjunta, quando um de nós já tivesse gasto mais do que devia, poderia haver a tentação de comprar mais aquela coisinha pois ainda há dinheiro na conta que o outro não gastou e compensava-se no mês seguinte, mas com contas separadas não. Um não gasta o que o outro poupou.

Uma parte das minhas poupanças, eu invisto em ações americanas de dividendos. São ativos de alto risco que a qualquer momento podem desvalorizar consideravelmente, mesmo que apenas temporariamente. O meu perfil permite-me assumir esse risco sem preocupações de maior.

Eu gosto de analisar empresas e contextos, tomar as minhas decisões de investimento e acompanhar de perto os resultados. No entanto, esse é um gosto pessoal meu. A tolerância ao risco é uma característica muito pessoal. Termos as finanças separadas dá-nos tranquilidade para podermos aplicar as nossas estratégias de investimento sem ter que gerir as preocupações e receios do outro.

Para finalizar, em termos de património, na minha opinião não há diferença prática nenhuma entre um de nós ter 100 na sua poupança e o outro ter 200 na dele ou nós termos 300 na mesma. Continuamos a ter o mesmo valor. Se algo acontecer e um de nós necessitar de ter acesso ao dinheiro do outro, terá, tal e qual como se estivesse todo junto.

Eu estou confortável assim. Também não tenho nada contra as outras opções. Se um dia acharmos melhor juntar tudo porque temos uma justificação para tal, por mim tudo bem.

Qual é a vossa opinião?

RBhttps://www.casacomtodos.com
Informático, de profissão e vocação, adora fazer caminhadas, correr, ver séries e ler livros de finanças pessoais. Destas, apenas 2 são mesmo verdade.

3 COMENTÁRIOS

  1. Eu jogo nessa equipa! Cá em casa há o dinheiro pessoal, há o dinheiro comum e não há chatices!
    Quando começamos a viver juntos definimos as regras para o uso do dinheiro comum (basicamente o que compramos com o dinheiro comum) e as poupanças que faríamos enquanto casal (que em parte derivam dos presentes que, enquanto casal, recebemos). Tendo esta base de acordo, é só gerir o dia-a-dia e já lá vão 9 anos assim. No nosso caso, nem sequer existe histórico de outros casamentos ou filhos e decidimos logo que seria esse o nosso modelo.
    O dinheiro é uma matéria que promove muitas discussões porque a relação que temos com ele depende de inúmeros fatores, efetivamente eu não tenho que ajuizar sobre os ‘vicíos’ do meu marido (música), da mesma forma que ele não o deve fazer sobre os meus (livros).
    Confesso que acho estranho os casais que trabalham com uma única conta.

  2. Por aqui também se faz assim já lá vão 16 anos sem chatices.
    Eu sou mais controladora provavelmente andava sempre a chatear com o dinheiro que ele gasta nos vícios.
    Apenas ajustamos os o valor que cada um contribui porque existem grandes diferenças de ordenado entre nós.
    Temos poupanças conjuntas e cada um tem as suas poupanças individuais.
    Até porque no meu caso era eu divorciada e com um filho e temos um filho em comum, não me parece justo que ele pague certas despesas que tenho com a minha filha apesar de sempre a ter tratado como filha dele sem qualquer distinção com o nosso filho em comum, eu é que não me sinto bem.

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