Como Organizar as Finanças Pessoais – Compreender a situação atual

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Como indiquei no meu artigo anterior, irei criar aqui um conjunto de artigos sobre uma possível abordagem de como organizar as finanças pessoais.

Este método resultou de várias pesquisas e da minha experiência pessoal, adquirida quando resolvi tomar as rédeas das minhas finanças. No meu caso ainda é um processo em curso pois há sempre margem para melhoria e otimização, mas já estou bastante satisfeito com os resultados que obtive até agora.

Antes de definirmos para onde queremos ir, temos que saber onde estamos. Assim, a primeira tarefa a executar é fazer um levantamento completo da situação atual para sabermos, entre outras coisas, quanto dinheiro temos e quanto devemos – o património líquido.

O património líquido é uma medida da nossa saúde financeira porque diz-nos o que sobraria se vendêssemos todos os ativos para pagar todas as dívidas.

Deve ser através desta medida que verificaremos se as medidas que tomamos para melhorar as nossas finanças estão a produzir os efeitos pretendidos. Cada movimento financeiro que nós fizermos deve ter como objetivo aumentar o nosso património líquido. Isso significa aumentar os ativos ou diminuir os passivos.

Pode ser em papel, numa folha de cálculo, numa aplicação específica ou onde for mais conveniente. Deve ser criada tabela com uma coluna para ativos e outra para passivos e devem ser registados todos os seguintes tipos de dados.

Valores patrimoniais

Fazer um levantamento dos valores patrimoniais existentes, como imóveis, automóveis, etc.

Como eu não tenho empréstimos ativos, já que a casa onde moro é da IM e os carros foram comprados a pronto, eu decidi não incluir os valores patrimoniais na análise que fiz às minhas finanças. A casa não é minha por isso não tenho valor patrimonial para considerar e os automóveis desvalorizam tanto que, numa análise a longo prazo, achei que não valia a pena incluí-los.

No entanto, quem tiver empréstimos sobre algum destes ativos deve incluí-los na análise. Por exemplo, se adquirimos um automóvel por 25.000€ a crédito, recebemos da instituição de crédito 25.000€ para pagar o carro mas o que iremos pagar por esse empréstimo é um valor bastante superior. Entretanto saímos com o carro do stand e ele já não vale os 25.000€. Só no primeiro dia já perdemos imenso dinheiro.

Normalmente pensamos mais na prestação mensal mas devemos ter sempre presente o total em dívida. Se tivermos um acidente que inutiliza o automóvel, ficamos sem ele mas a dívida permanece.

Então, se optarem por incluir este tipo de bens no cálculo do vosso património líquido, o valor atual estimado das casas, automóveis, barcos, etc. devem ser registados na coluna dos ativos e os valores em dívida dos respetivos empréstimos, se os houver, devem ser registados na coluna dos passivos.

Contas, poupanças e investimentos

Posteriormente, registar todas as contas bancárias que temos, sejam contas à ordem, a prazo, contas de poupança, investimento, etc. Devemos registar os seus respetivos saldos na coluna dos ativos.

Aconselho a aproveitar este passo para incluir uma coluna extra e registar informação relevante como o valor anual da manutenção de conta, o custo dos cartões de débito e crédito e outros custos ou taxas que paguem, como os custos com transferências bancárias, etc. Devem ainda incluir todos os benefícios ou vantagens que a conta vos proporciona, como a relação com o gestor de conta, etc.

Por exemplo, antigamente eu tinha o hábito de abrir conta no banco cujo balcão fosse o mais próximo do meu local de trabalho, de forma a me poder deslocar lá o mais rapidamente possível sempre que tivesse algum assunto para tratar. Nunca tive realmente presente o custo que implicava ter a conta aberta nem o que pagava pelos serviços que utilizava.

Entretanto, praticamente deixou de ser necessário ir a um balcão. Já quase tudo pode ser feito pela internet.

Mais recentemente, os bancos começaram a cobrar despesas de manutenção de conta e a cobrar pelas transferências bancárias. Só aí é que eu resolvi analisar quanto estava a pagar de comissões, taxas, anuidades, etc. de todas as contas. Estava a pagar perto de 200,00€ por ano por serviços que não tinham para mim qualquer valor acrescentado relativamente a outros bancos online que não cobram por esse tipo de serviços, pelo que procurei alternativas, fechei todas as contas que tinha nos bancos ditos tradicionais e agora apenas utilizo bancos online, como o Activobank e o Best.

Antes de ter feito esta análise, num dia pagava 15€ de manutenção de conta, noutro pagava 20€ de anuidade do cartão de débito, etc. e como eram valores baixos, nunca dei muita importância. Também nunca tinha somado tudo. Agora pago zero pelas minhas contas, cartões e operações e continuo a ter os mesmos serviços que tinha anteriormente.

Cartões de crédito

Da mesma forma que no ponto anterior, deveremos listar todos os cartões de crédito e registar os respetivos saldos, desta vez na coluna dos passivos pois são valores que estão em dívida.

Recomendo que na tal coluna extra registem o plafond atribuído, a taxa de juro em vigor e as coberturas dos seguros que os cartões vos proporcionem. Registem também as vantagens que os cartões têm, como milhas ou cashback que recebem pela respetiva utilização.

Esta informação poderá ser útil mais à frente, se optarem por analisar outras ofertas de cartões de crédito que possam ser mais vantajosas.

Por exemplo, eu utilizava um cartão de crédito pelo qual pagava 40€ por ano e que dava X milhas aéreas por cada x Euros que pagava com ele. Cheguei a ter mais de 20.000 milhas que nunca utilizei e que iam caducando a cada 2 anos. Tinha custos e não tinha proveitos.

Resolvi, por isso, cancelá-lo e subscrevi um outro que não tem qualquer custo e que devolve, no mês seguinte, 2% de cashback em todas as compras. Neste caso não tenho o custo e tenho o proveito.

Talvez neste cartão a taxa de juro seja superior ao do outro por não ter custos. Não sei. Como sempre paguei e sempre pagarei o saldo dos cartões de crédito no fim do mês, a taxa de juro que eles aplicam para mim não é diferenciadora.

Outros empréstimos

Da mesma forma que fizemos para os empréstimos à habitação e automóvel, devem ser registados na coluna dos passivos todos os saldos dos restantes empréstimos que tenham, como os créditos ao consumo por exemplo, incluindo a respetiva taxa de juro.

Dependendo de cada situação, se forem vários os empréstimos pode compensar fazer uma consolidação de créditos. Há vários especialistas que podem ajudar nessas situações.

Se não for o caso, essa informação será útil na mesma para se poder decidir se é mais vantajoso utilizar as poupanças para antecipar o pagamento de empréstimos ou investir o dinheiro em produtos que dêem rendimento.

Seguros

Apesar de não fazer parte do património líquido, é importante listar, talvez noutra folha, todos os seguros subscritos e respetivas coberturas e cláusulas.

Em primeiro lugar porque há muitas situações que nos dão despesas desnecessárias porque não sabíamos que estávamos protegidos contra elas por um seguro. Com bastante frequência ouço histórias de pessoas que ficaram, por exemplo, com um eletrodoméstico estragado pela trovoada e foram comprar um novo para o substituir, não sabendo que tinham subscrito um seguro que abrange essas situações.

Em segundo lugar porque podemos estar a incorrer em custos desnecessários por “redundância” de coberturas.

Por exemplo, há uns anos atrás comprei uma habitação e subscrevi o seguro de vida e o multi-riscos para os dois titulares na instituição onde contraí o empréstimo à habitação. Se a memória não me trai, pagava mais de 80€ por mês pela totalidade dos seguros.

Muitos anos mais tarde, por mero acaso, descobri que o meu seguro multi-riscos tinha algumas coberturas que já estavam asseguradas pelo seguro do condomínio. Resolvi então fazer uma análise e troquei o seguro multi-riscos por outro de outra seguradora, sem essas coberturas “duplicadas”. Mudei também os seguros de vida e, com isso, fiquei a pagar menos cerca de 30€ por mês. Ao fim de cada ano são 360€. Como estive 4 anos com os primeiros seguros, perdi assim 4 x 360€ = 1.440€.

Conclusão

Após a conclusão deste primeiro passo, deveremos estar aptos para indicar com exatidão o nosso património líquido, bem como já ter algumas ideias do que poderemos fazer para melhorar.

Um exemplo desta folha de cálculo, com valores introduzidos completamente aleatórios, pode ser:

TipoDescriçãoActivosPassivosCustosNotas
ValoresHabitação150.000,00€98.672,00€
Automóvel 17.800,00€0,00€
Automóvel 223.000,00€17.652,00€
Contas à ordemBanco 1672,78€5€/mês + 20€ Cartão+ Gerente de conta
Banco 2148,00€
Contas poupançaBanco 12.700,00€0,1% Juro
PPR12.000,00€
Certificados de Aforro5.000,00€
Cartões de créditoCartão 1-350,00€35€ Anuidade
TAEG: 13% (TAN: 8,5%)
Plafond de 1.500€
Cartão Universo-128,29€S/ anuidade
TAEG: 15,6%(TAN:14,27%)
Plafond de 1.500€
Cashback de 1% em cartão
EmpréstimosWorten221,50€TAEG: 15,6%(TAN:14,27%)
TOTAL:201.320,78€116.067,21€
Património Líquido85.253,57€

O objetivo será então fazer com que este valor do património líquido cresça consistentemente ao longo do tempo.

No próximo artigo vamos debruçar-nos nas despesas e receitas e no que devemos fazer para conhecer com exatidão de onde vem e para onde vai o nosso dinheiro.

RBhttps://www.casacomtodos.com
Informático, de profissão e vocação, adora fazer caminhadas, correr, ver séries e ler livros de finanças pessoais. Destas, apenas 2 são mesmo verdade.

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