Como Começar a Investir em Dividendos

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Com a queda dos mercados bolsistas, penso que esta é a altura ideal para quem queira começar a investir numa futura fonte de rendimentos passiva, a parte da poupança de que não necessite num horizonte temporal longo (pelo menos 10 anos).

Antigamente, o investimento em bolsa não estava tão acessível a todos como agora. Os elevados encargos, taxas e comissões que eram cobrados, só eram suportados em investimentos de montantes elevados.

Hoje, o aparecimento de corretoras de baixo custo veio possibilitar a todos investir em grandes empresas internacionais, com pequenas quantias, sem uma percentagem da possível rentabilidade ser logo dedicada para pagar os custos de transação.

Por exemplo, a DEGIRO, a corretora mais barata para transações em bolsas americanas, cobra por uma compra de 500 € de ações de uma empresa americana, cerca de 0,52€. Além disso, a conta Basic não cobra qualquer comissão nas distribuições de dividendos, tornando viável o investimento em dividendos a todos.

O que é Investir em Dividendos?

Investir em dividendos é uma estratégia que dá aos investidores duas possibilidades de retorno financeiro: os pagamentos regulares de dividendos que as empresas fazem aos acionistas e a possível apreciação do valor das próprias ações.

Adicionalmente, as empresas boas pagadoras de dividendos também costumam apresentar uma volatilidade inferior às restantes.

Quando uma empresa tem lucro, o Conselho de Administração, eleito pelos acionistas ou pelos donos da empresa, define a percentagem dos lucros que deve ser reinvestida no crescimento da empresa, a percentagem que deve ser utilizada para pagamento de dívida, a que deve ser utilizada para compra de ações próprias e a que deve ser distribuída pelos donos ou acionistas, também chamado de dividendo.

As empresas não são obrigadas a pagar dividendos e muitas não o fazem, especialmente as empresas com grande margem de crescimento e que desejam utilizar todo o lucro obtido no seu próprio crescimento, como as tecnológicas.

Empresas muito grandes e maduras, com taxas de crescimento baixas, optam por distribuir uma parte dos seus lucros aos acionistas sob a forma de dividendos.

O dividendo tem uma relação próxima com os resultados da empresa. Quando o lucro da empresa cresce, normalmente, também cresce o dividendo distribuído. O contrário também pode acontecer. Se uma empresa baixa significativamente o seu lucro, pode também decidir diminuir, ou mesmo cancelar, a distribuição de dividendos.

Existem grandes empresas que, quando têm resultados abaixo do esperado, utilizam as grandes reservas de dinheiro de que dispõem para manter o dividendo e, consequentemente, os acionistas satisfeitos.

O dividendo é um valor pago por ação. Nos EUA este valor é pago trimestralmente mas na Europa, o mais normal são pagamentos anuais.

Vantagens de Investir em Dividendos

Investir em dividendos tem muitas vantagens, algumas das quais as seguintes:

  • Valorização: As ações de empresas que distribuem dividendos historicamente têm valorizado mais do que o mercado em longos períodos de tempo.
  • Previsibilidade: Uma parte do retorno do nosso investimento, o dividendo, é relativamente estável e fácil de prever.
  • Segurança: Os dividendos são pagos independentemente das oscilações dos mercados, pelo que o nosso retorno não depende do momento em que precisamos de dinheiro.
  • Crescimento composto: A magia do crescimento composto. Ao investirmos os dividendos recebidos este ano, também eles nos próximos anos irão gerar dividendos, num crescimento exponencial ao fim de algum tempo (muito tempo).

Para mim, tem também um efeito psicológico motivador ao receber todos os meses os dividendos, por menores que sejam e ver a sua evolução ao longo do tempo.

Formas de Investir em Dividendos

Existem várias formas disponíveis para quem pretender investir em dividendos. As mais usuais são os fundos de investimento, os ETF e as ações individuais de empresas.

  • Fundos de Investimento: Têm uma equipa de gestão responsável pelo cumprimento da estratégia definida para o fundo e, por isso, têm custos mais elevados. Os fundos permitem, como montantes reduzidos, uma diversificação elevada e ainda têm a vantagem de, na maioria das entidades financeiras, podermos adquiri-los e mantê-los sem o pagamento de comissões de custódia. No entanto, eles têm comissões de gestão e podem ou não ter comissões de subscrição e resgate. A soma destas comissões reduz e pode mesmo anular os ganhos que o fundo possa ter.
  • ETF: Ao contrário dos fundos de investimento, têm uma gestão passiva. São um conjunto de ativos que têm como objetivo replicar um determinado índice, pelo que a gestão é feita por uma aplicação informática e não por gestores profissionais. Isto permite-lhes ter custos de manutenção muito baixos. No entanto, há entidades a vender ETF que cobram comissões de custódia. Também permitem uma boa diversificação com montantes reduzidos.
  • Ações: A compra de ações individuais permite uma maior flexibilidade na composição da nossa carteira. Não se aplicam os custos de mantuenção mas podem aplicar-se comissões de custódia e de transação em bola. No entanto, para conseguir uma boa diversificação são necessários montantes mais elevados. Também é necessário mais esforço na seleção das empresas onde investir.

Tanto nos fundos de investimento como nos ETF, existem os que distribuem os dividendos e os que os acumulam ou reinvestem.

Ao não distribuírem os dividendos, os fundos de investimento e ETF de acumulação são mais eficazes ao nível fiscal pois não pagam os impostos e podem reinvestir esses valores.

Ao longo de muitos anos os impostos pagos aquando da distribuição dividendos podem originar avultadas perdas de rendimento pois se perde o efeito dos rendimentos compostos.

No entanto, como o meu objetivo é ter um rendimento passivo para complemento à reforma, prefiro produtos com distribuição de dividendos a ter que alienar uma parte dos investimentos para obter o tal complemento.

Além disso, como já disse anteriormente, valorizo o efeito psicológico de receber mensalmente os dividendos e poder escolher onde os reinvestir ao invés de saber que eles estão a valorizar os meus investimentos mas não os ver.

Como gosto de avaliar as empresas, conhecer os seus negócios, as suas perspetivas futuras e os seus riscos e, ao mesmo tempo, desejo desenvolver os conhecimentos necessários para tal, optei por construir o meu próprio portfolio de ações individuais, selecionado as empresas onde investir de acordo com critérios que defini e que serão discutidos num próximo post.

Este post, daqui para a frente, será mais direcionado para o investimento em ações do que em fundos e ETFs, onde as ideias apresentadas não se aplicam.

Principais Métricas para Avaliação de Empresas

Quem investe em ações individuais de dividendos deve conhecer as métricas principais para a sua avaliação. As métricas seguintes ajudam a perceber o que esperar ao nível dos dividendos, se serão seguros e se devemos evitar adquirir essa empresa.

  • Dividend yield: O dividendo anual, representado como uma percentagem sobre o preço da ação. Por exemplo, se uma ação custa 100€ e paga dividendos anuais de 5€, então o dividend yield é de 5%. A comparação entre o dividend yield atual com o histórico também permite avaliar a evolução da empresa. Normalmente, quanto maior melhor, mas deve-se ter cuidado com a capacidade que a empresa deve ter para manter dividendos altos e, idealmente, aumentá-los periodicamente. Devemos procurar empresas que aumentem anualmente o seu dividendo numa percentagem superior à da inflação.
  • Payout ratio: É o dividendo como uma percentagem do resultado líquido da empresa. Por exemplo, se uma empresa tem um resultado líquido de 2€ por ação e paga um dividendo de 1€ por ação, o seu payout ratio é de 50%. Quanto menor for o payout ratio melhor pois torna esse valor de dividendo mais sustentável no longo prazo.
  • Total return: O total return ou resultado total é a performance total da ação, ou seja, a soma dos dividendos com os ganhos ou perdas da sua cotação. Por exemplo, se uma ação subiu 10% e tem um dividend yield de 4%, então o seu total return foi de 14%.
  • Earnings per share (EPS): É o lucro por ação. Para o dividendo de uma ação ser sustentável, o lucro por ação da empresa deve ser superior ao seu dividendo. As melhores empresas são aquelas que, ao longo do tempo, conseguem consistentemente subir os seus EPS pois além de garantir o pagamento do dividendo também oferece boas possibilidades de o aumentar consistentemente.
  • P/E ratio: Price-to-earnings representa a divisão do preço da ação de uma empresa pelos lucros por ação e é uma métrica utilizada para determinar se a ação está justamente valorizada.

Investidores inexperientes podem ter a tentação de procurar apenas as empresas com os maiores dividend yields mas, como o dividend yield varia de acordo com o preço da ação, em muitos casos o dividend yield poderá estar alto porque a cotação baixou muito, devido à falha dos resultados da empresa em conseguirem atingir as expetativas do mercado e garantir a continuidade do pagamento do dividendo. Os ingleses chamam a isto a Dividend Yield Trap (a armadilha do dividend yield).

Para evitar esta armadilha, existem alguns passos a tomar quando se está a avaliar uma empresa:

  • Evitar comprar ações com base unicamente na maior dividend yield. Quando uma empresa tem esta taxa consideravelmente mais alta que as empresas do mesmo setor pode significar que está em dificuldades.
  • Usar EPS para medir a sustentabilidade do dividendo.
  • Usar o histórico de dividendos da empresa como guia.
  • Estudar o balanço, incluindo a dívida, reserva de dinheiro, outros ativos e passivos.
  • Ter em consideração o ramo de atividade da empresa. É uma atividade com futuro ou está em risco pela evolução tecnológica, pelos seus rivais ou pela mudança de hábitos dos consumidores. Por exemplo, uma cadeia de distribuição de lojas físicas está ameaçada pelo aumento do recurso às compras online.

Não esquecer que esta é uma estratégia a longo prazo, pelo que nada adianta que uma empresa tenha um dividend yield elevado hoje se não o conseguir manter e melhorar no futuro.

O processo de ganhar dinheiro através do investimento em dividendos envolve procurar empresas que têm boas probabilidades de aumentar os seus dividendos ano após ano, compensando a inflação e fazendo com que todos os anos ganhemos mais dinheiro.

7 Regras para Investir em Dividendos

Regra #1 – Investir apenas no que conhecemos e compreendemos

Como disse Peter Lynch, que foi gestor do Fidelity Magellan Fund, o maior fundo de ações do mundo, se não conseguirmos explicar o negócio de uma empresa de uma forma que uma criança compreenda então devemos evitá-la.

Compreender o negócio em alto nível significa que sabemos como a empresa ganha dinheiro. Sendo investidores numa empresa, somos donos de uma parte dela, pelo que é importante que a conhecemos, os seus riscos e as suas vantagens competitivas.

Regra #2 – Investir em empresas que suprem necessidades

Há produtos e serviços sem os quais não conseguimos viver e que apresentam uma procura consistente ou crescente. Por exemplo, energia, alimentação, etc. Também podemos tentar prever que um serviço irá ser importante no futuro mesmo que hoje não seja essencial e podemos investir nessas empresas numa perspetiva de potencial de crescimento futuro.

No entanto, o core dos nossos investimentos deve ser centrado em grandes empresas que respondam às necessidades atuais, pois essas são mais seguras e dão mais garantias de ainda cá estarem daqui a muitos anos.

Regra #3 – Apenas investir em ações que pagam dividendos

É a regra base do investimento em dividendos, apenas investir em empresas que distribuem os dividendos. Desta forma garanto que continuo a ser pago mesmo quando os mercados estão a perder. Também significa que tenho um retorno garantido enquanto espero que as ações valorizem.

Regra #4 – Focar em empresas com vantagens competitivas

Devemos dar prioridade a empresas que tenham a capacidade de manter vantagens competitivas em relação aos seus concorrentes, de forma a protegerem os seus lucros a longo prazo. Normalmente estas são grandes empresas, com grandes capitalizações bolsistas.

Regra #5 – Reinvestir sempre os dividendos recebidos

De forma a aproveitarmos o efeito do crescimento composto e aumentar consideravelmente o nosso património a longo prazo é indispensável reinvestir sempre os dividendos recebidos. Cada dividendo recebido deve ser reinvestido para também ele produzir dividendos no futuro e assim sucessivamente.

Regra #6 – Diversificar por setores

Diversificar por setores permite aproveitar oportunidades em setores que possam estar com reduzida performance e permite dar alguma estabilidade ao portfolio. Se, por exemplo, investirmos apenas em muitos bancos diferentes não estamos, na prática, a diversificar, pois se acontecer alguma situação que prejudique o sistema bancário, todos os nossos investimentos irão ser afetados.

Regra #7 – Limitar o número de posições

Deve-se estabelecer um número máximo de empresas a deter até 30 empresas. Mais do que isso torna a tarefa de acompanhar e avaliar a evolução das empresas irrealizável. A partir do número máximo de empresas que estabelecermos para o nosso portfolio, se desejarmos adquirir uma nova empresa, deveremos vender outra que julgarmos que não irá ter uma performance tão boa. Em alternativa a adquirir novas posições em empresas que ainda não detenhamos, podemos reforçar posições em empresas que já temos no nosso portfolio, que estejam a bom preço e que nos deem boas garantias de crescimento.

Datas importantes na Distribuição de Dividendos

Os investidores em dividendos devem-se focar em empresas que pagam dividendos regularmente, de forma estável e que sobem o dividendo com o decorrer do tempo.

Este processo requer a análise de ações que preencham os critérios que definimos para entramos com uma posição nessa empresa.

Periodicamente, sendo que no caso dos EUA é geralmente a cada trimestre, as empresas anunciam o montante do dividendo a distribuir aos acionistas bem como as datas de cada passo dessa distribuição.

Estas são as datas que devemos conhecer:

  • Dividend Declaration Date: É a data em que o conselho de administração comunica a distribuição de dividendos.
  • Ex-Dividend Date: A data ex-dividendo é o primeiro dia em que a ação é transacionada sem direito a receber dividendos. Por exemplo, se a data ex-dividendo foi em 2020/03/22, então receberão dividendo todos os investidores possuidores de ações no dia 2020/03/21. Neste dia, normalmente o preço das ações desce no mesmo montante do dividendo, porque a empresa passa a valer menos por ter distribuído esse dinheiro.
  • Record Date: Os acionistas que não estejam registados como tal nesta data não irão receber dividendos. O registo na maior parte dos países é automático para ações compradas anteriormente à data ex-dividendo.
  • Payment Date: A data de pagamento é a data em que os dividendos são depositados nas contas dos acionistas.

Por onde Começar a Investir em Ações de Dividendos?

Se quer começar a investir em ações individuais mas não sabe onde começar a procurar empresas com excelente histórico de pagamento de dividendos, pode começar pela lista dos Dividend Aristocrats. Os dividend aristocrats são empresas que aumentaram os seus dividendos todos os anos, pelo menos, nos últimos 25 anos. A lista dessas empresas pode ser consultada aqui.


P.S. – Este post tem o alto patrocínio da IM que tratou do jantar e do almoço sozinha enquanto eu me divertia a escrever.

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RBhttps://www.casacomtodos.com
Informático, de profissão e vocação, adora fazer caminhadas, correr, ver séries e ler livros de finanças pessoais. Destas, apenas 2 são mesmo verdade.

3 COMENTÁRIOS

  1. Belo artigo. Muito completo e interessante para quem tem esta estratégia (como eu). Há algumas armadilhas em que cai nos primeiros tempos e agora estou a corrigi-las.

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